Portugal
Jun 15,2012 00:00 by Afonso Melo
Coube-me, sobretudo por razões profissionais, acompanhar ao vivo a quase totalidade dos jogos da Selecção Nacional nas fases finais dos Campeonatos da Europa, de 1996 até hoje.
A história repete-se agora, em Lviv, cidade ocidental da Ucrânia que, por via do caldo de culturas em que se encontra mergulhada, junto à fronteira com a Polónia, mas não longe da Bielorússia, da República Checa e da Hungria, ganha igualmente os nomes de Lwów, Lvov e Lemberg.
Não é caso nem lugar para se fazer a sua história, desde cidade medieval da Ruténia aos tempos de grandeza do império Austro-Húngaro dos implicativos Habsburgos, passando pela crueza da União Soviética.
Neste tempo pouco rico, Lviv foi, isso sim, o palco do jogo de estreia de uma equipa de Portugal muito tem-te-não-caias e logo frente a uma Alemanha que, para lá dos seus três títulos de campeã do Mundo e mais três de campeã da Europa, se apresenta, nos dias que correm, sob o comando de Joachim Löw e mai-los seus Özis, Khediras, Neuers, Shweinsteigers e Gomez, como um conjunto renovado e preparado para fazer com que os adeptos germânicos esqueçam que a Mannschaft não ganha uma grande competição desde precisamente 1996. Como as coisas são... Desde 3 de Junho que toda a orgânica da Selecção de Todos Nós, como lhe chamou um dia Ricardo Ornellas, se movimentou, como uma peça de xadrez neste tabuleiro de nações que é o Europeu, em direcção à sua primeira casa. Casa em mais do que um sentido, portanto. Não em Lviv, não na Ucrânia, mas ali perto, como já se disse, em Opalenica, uma pequenina urbe polaca de cerca de 10.000 habitantes, considerada como local ideal para que os jogadores tenham doses repartidas de trabalho e repouso. Nada de invulgar. Na Alemanha, durante o Mundial de 2006, a opção foi idêntica: Portugal estabeleceu--se em Marienfeld e daí viajou, ora de autocarro, ora de avião, para Colónia, Frankfurt, Gelsenkirshen, Nuremberg e Munique, cidades onde jogou ao longo da última grande aventura portuguesa num Mundial. E falo sobretudo deste caso porque dele tenho maior conhecimento de causa. Mas também na África do Sul, há dois anos, a decisão foi idêntica, algo que se explica pelo facto de o director desportivo, Carlos Godinho, de há muito ser defensor desta política. E como já tudo correu muito bem e correu menos bem, não vale a pena discuti-la. Toda a envolvência de uma equipa da dimensão que Portugal já atingiu – e também não fica mal relembrar que tem como «capitão» um dos dois melhores jogadores do Mundo – é suficientemente esmagadora para que fosse sequer possível contemplar deslocações contínuas de toda a caravana.
São toneladas de equipamentos, são sistemas de segurança que não podem ser sujeitos a alterações profundas; são instalações para a imprensa que é preciso pôr a funcionar nas imediações do hotel; são disciplinas alimentares que exigem dos chefes Loureiro e Lavrador avaliação dos mercados e das cozinhas. Há satélites em permanente translação em redor desse planeta brilhante que são os jogadores e os técnicos. Do profissionalismo de toda essa gente, posso eu testemunhar, seja pelas inúmeras vezes que acompanhei a Selecção Nacional como jornalista, quer pelos anos magníficos – e exitosos! - que vivi dentro dessa estrutura.
Sábado, em Lviv, Portugal jogou aquele que é, certamente, o seu jogo mais duro desde que enfrentou a Espanha na Cidade do Cabo para os oitavos-de-final do Campeonato do Mundo de 2010. Uma derrota seca (0-1) e uma exibição medrosa desencantaram, nessa altura, os adeptos. Depois de alguns anos felizes - uma meia-final no Euro-2000, uma final no Euro-2004 e nova meia-final no Mundial-2006 (entrecortadas com miséria de 2002) – os portugueses voltaram a cair na velha realidade, embora agora com a grande vantagem de os apuramentos surgirem amiúde, beneficiando-se também, é verdade, do facto de as grandes provas terem sido abertas a mais equipas nas fases finais.
No entanto, é fundamental não deitar para trás das costas uma lógica fatídica que nem o reflexo luminoso de jóias como Cristiano Ronaldo ou Nani pode impedir de observar com modéstia e ponderação: Portugal, pela sua pequenez geográfica e populacional, não pode exigir dos seus filhos que se multipliquem em gerações de talento bruto.
Por mais que alguns jornais queiram vender imagens distorcidas, a geração que findou em 2006 vai demorar anos a repor. Como aconteceu com a de 1966 ou com a de 1984. E se exemplo mais puro quiséssemos encontrar, nada como olhar para o adversário de amanhã: uma Alemanha que há dezasseis anos procura encontrar nova gesta de vencedores. n AFONSO MELO

(NOTA: texto escrito antes do jogo com a Alemanha)