Águeda: Para Ana Paula Silva
Feb 23,2012 00:00 by Paulo Sucena
No dia 17 de Outubro de 2009, partiste
a caminho da morte e das suas ocas habitações
deixando um álgido, dorido, arroxeado luto
nos que sabiam que respiravas, feliz,
o aroma dos dias que depois das grandes chuvas
anunciam a Primavera e que olhas, natural
os milheirais de Travassô a ganharem o amarelo-torrado
pelo Verão fora enquanto os lagares de Outono
esperavam, pacientes, o tempo da fermentação do mosto.
Na plenitude da tua vida, sonhavas o futuro
sem temer os insondáveis desvãos da noite,
porque tu eras mais rútila que a rosa
mais viva que a água viva
e eras canto e festa, amanhã e esperança,
voz solidária sobrenadando a talagarça
onde homens, mulheres e jovens bordam
a música do meu velho Orfeão de Águeda.
A tua linhagem pouco importa,
porque
A tua vida foi igual à das folhas.
Se o vento arranca algumas e no chão as espalha,
ao vir a Primavera logo nascem mais outras.

Safo, que amou a luz da Grécia antiga,
deixou-me uma frágil recusa da tua ausência:
A morte não é um bem.
Os próprios deuses o sabem.
Eles preferiram viver...
Eu, que não sou deus e além
da pobre mão escrevente
outro poder não tenho,
dela me socorro para que na brevidade
destas palavras possas surgir
rediviva
iluminando com a música do teu ser
esta casa que já foi tua!