Brincadeira de muito mau gosto
Nov 23,2011 00:00 by RSP
A notícia alarmante ressoou na cidade e no país, e teve até foros de abertura de telejornais - caiu uma ponte em Águeda!
O escritor Manuel Carvalhal, que sendo de Espinhel, vive no Porto, ficou surpreendido, alarmado, com grande inquietação e ofegante  telefonou ao Manuel Tampos:
“Caiu aí uma ponte, ia algum comboio a passar? Morreu muita gente?”, perguntou.
“Não foi a do comboio e se fosse também não morria muita gente, porque eles andam sempre vazios...”, disse o Tampos.
“Mas foi a ponte de Espinhel?!
“Foi aquela do Vouga, a antiga, que não se vê – respondeu o Tampos – a nossa está bem segura...”.
“Então, como é que foi isso, partiram as estacas?”.
“A culpa foi do Clube, que sabia que ela estava a cair e não mandou pôr lá umas chapadas de cimento nos pilares e nas sapatas... limitaram-se a colocar uns sinais de proibição à entrada e à saída da ponte...“.
O Carvalhal, disse em tom reflexivo: “Se fosse eu, fazia o mesmo, tinha medo de entrar no tabuleiro e cair lá abaixo!”
“O Clube não fez as obras de conservação da ponte para não gastar dinheiro – continuou o Manuel Tampos – andam agora em poupanças! Veja lá que passei há bocado na Rua de Cima, em Águeda, e os comerciantes estavam furiosos e com razão. A iluminação da rua já era uma miséria e agora o Gil Pedalais acabou com o resto, mandou apagar as lâmpadas de alguns candeeiros de iluminação pública, fica aceso candeeiro sim, candeeiro não, candeeiro sim, candeeiro não... “.
O Carvalhal ouviu com atenção e comentou:
“Isso não deve ser para poupar, deve ser por uma razão estética. O Pedalais quererá criar um ambiente agradável na rua, com sabor medieval, que  favorece o comércio, com a rua às escuras a iluminação das vitrines sobressai muito mais...!
“Sobressai, sobressai, eu sei é que o Egberto das Canas, que era o mais exaltado, ficou com um hematoma na testa e com o nariz inchado, porque ontem à noite deu com a cabeça num candeeiro apagado... tiveram que chamar a ambulância!“.

*** * ***
O Salão Nobre do Clube estava pronto para a assembleia, o presidente Celestino de Almada tomou o lugar na mesa enfeitada com um definhado ramo de flores, porque a crise aconselha a que não haja gastos supérfluos com ornamentações.
Sentou-se, olhou o hemiciclo e verificou que apenas os membros do partido da rosa ocupavam os seus lugares e o independente Rui Eucalipto.
“Que se passa?”,  perguntou ao Pedalais. Será que as convocatórias que mandámos aos laranjas e aos populares foram com a hora errada?”.
“Não é nada disso – respondeu, irritado, o Gil Pedalais – mandaram dizer que não vinham, que não querem trabalhar à segunda-feira! Isto é uma vergonha, quando se candidatam aos lugares prometem trabalho, mangas arregaçadas, trabalho e mais trabalho. Depois de eleitos,  dizem que não estão disponíveis para trabalhar à segunda feira... Devem estar cansados do fim de semana!”.
“Então temos que marcar outra data – disse o Celestino de Almada, resignado – será que eles estarão disponíveis às terças-feiras? Eu marcava para uma sexta, mas às tantas querem ir para fim de semana!“.
“Isto é uma brincadeira de muito mau gosto – continuou o Pedalais, sem esconder a indignação – sujeitamo-nos a perder uma receita de três milhões de euros, se a taxa do IMI e a derrama não forem aprovadas até ao fim do mês...”.
“Então vamos arriscar, marco a reunião para  terça feira, dia 29”, decidiu o Celestino de Almada – espero que nessa data venham.
“Não estou preocupado – observou o Pedalais – se continuarem com esta brincadeira e faltarem, eu só vou gerir com o que tenho. Já mandei apagar metade das luzes da Rua de Cima, terei que  fazer o mesmo no resto da cidade. Depois, se alguém bater com a cabeça nalgum candeeiro, a responsabilidade não é minha!”.