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Povo é o peão sacrificado deste xadrez europeu
Apr 06,2011 00:00
by
Nelson Leal
À hora em que escrevi, ainda este governo estrebuchava, nos estertores finais. Uma morte que de há muito vinha sendo anunciada por quase todos e por todos desejada. Só a hipocrisia de alguns, em nome de estratégias blindadas, foi enevoando os seus inconfessados planos de eleições gerais antecipadas. Portugal é, hoje, um país ingovernável e uma batata quente que ninguém quer assumir. À beira da bancarrota, com os juros da dívida a atingirem, a cada mês que passa, valores históricos e uma economia em recessão e sem qualquer luz ao fundo do túnel; com o governo a recorrer a medidas cada vez mais impopulares para controlar o déficite, a dívida soberana a subir cada vez mais e o governo a teimar, sempre com as mesmas receitas recessivas, e ele a dar-lhe, e a burra a fugir-lhe…; com o PSD sem saber para que lado virar, ora a apoiar o governo, em nome do putativo superior interesse nacional e a abrir úlceras internas de contestação, ora a ameaçar rupturas sempre adiadas, para apaziguar a rapaziada mais intranquila, mas, manifestamente, sem uma estratégia clara de oposição. Um país, em resumo, a ser cozido em lume brando, com os estrategas partidários amarrados nas suas próprias contradições, sem capacidade de acção, a verem o país a afundar-se, com um resignado encolher de ombros. À espera de Godot… Sócrates percebeu que tinha que fazer alguma coisa. E fê-lo, de forma brilhante, mesmo que, à custa de todos nós. Adivinhando uma moção de censura vitoriosa, que o PCP já andava a cozinhar, não quis sair pela porta pequena e antecipou-se. Condimentou um novo PEC, saturado de salmonelas, que sabia que a oposição, de maneira nenhuma, engoliria, mandou às malvas as boas maneiras, como se não houvesse povo, nem instituições e foi de abalada a Bruxelas, recolher a bênção do Supremo Poder. Pedro Passos Coelho, maçarico nestas coisas da alta política, que acalentava o sonho de vir a ser poder sobre os escombros da má governação socialista, viu-se, de repente, com a criancinha nos braços e lá fez o frete a Sócrates. Eleições gerais antecipadas. Sócrates cedo percebeu que, sozinho, caminharia, a passos largos, para o suicídio político. E quanto mais tarde estivesse naquele braseiro governamental, mais se queimaria. Coelho acalentava o sonho de Sócrates cumprir esta legislatura, fazer o trabalho sujo, que o FMI e o FEE, a prestações vão impondo e, depois, aparecer ele, com a casa mais limpa e as dívidas mais controladas, a animar a malta com algumas migalhas e a estender a espada da vitória e a traçar os caminhos do futuro. As consequências políticas destas eleições, não oferecem grandes dúvidas. Com uma provável vitória do PSD, mas sem maioria, e com o país num profundo estado depressivo, só lhes resta uma saída: uma ampla coligação que abrangerá o PS, PSD e CDS, numa postura, mais uma, de meninos de coro, bem comportados, a suplicarem aos senhores do dinheiro, das agencias de notação e à senhora Merkel, que nos dêem a mão e nos salvem desta trapalhada, onde eles próprios nos meteram. Inaugura-se um ciclo, com um conteúdo político já conhecido, com as receitas já tantas vezes provadas e com as contra-indicações que são bem conhecidas de todo o povo português. Mais um ciclo com os dias contados, mas que importa? Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas, parece ser o lema do poder… A Europa que começou por parecer a nossa salvação, é hoje, a nossa perdição. Sem Ela não vamos a lado nenhum mas, com ela, e com estes nossos timoneiros, o nosso destino parece ser apenas um: o abismo! n NELSON LEAL |