Preto Grande - O Pequeno Croniqueta
Mar 30,2011 00:00 by Silva Pinto
Quando eu frequentava  as aulas de catequese, na Igreja Matriz de Santa Eulália, em Águeda, tive como “professoras”a D. Marquinhas do Amaral e a D. Madalena Balreira, infelizmente já falecidas. Ouvia as histórias maravilhosas dos Evangelhos e aprendia a decorar as orações.
Nessa altura, já fora batizado e libertado do Pecado Original, que eu não recordava  ser da minha responsabilidade, mas, ao que me diziam convicta e dogmaticamente, eu praticara, solidariamente, mesmo antes de vir ao mundo. Só a água benta do batismo me lavou desse pecado. Os que nunca foram batizados, incluindo os bebés, ou fetos, que morreram in-utero, não se livraram de tal pecado. Hoje em dia, parece que, afinal, não nascemos com a marca do pecado de Adão e Eva, e que aquele papão que assustava as crianças era apenas uma invenção, ou uma história, ou uma “metáfora”. Mas, a verdade é que os batismos de meio corpo, ou de corpo inteiro, continuam a acontecer, embora por outras razões.
    Os pretos que eram transportados de África como escravos para o Brasil, para Cuba e outras regiões do mundo eram, antes de serem amontoados aos magotes nos barcos negreiros, batizados piedosamente por um padre que, assim, os libertava da morte espiritual mas não da morte corporal. Milhares de negros sofreram e morreram nessas viagens de barco,  sob o olhar cúmplice,  de muita gente. Preto não era gente, como a outra gente.
    No final das aulas de catequese, fiquei aprovado e fiz a primeira comunhão e mais tarde o crisma. Com tantas habilitações fui convidado e aceitei ser  padrinho 27  vezes. Tal era a minha preparação que atingi o grau de catequista adjunto e tive direito a usar batina vermelha, encimada com um roquete branco e rendado, que usava nas cerimónias religiosas mais importantes, acompanhado de mais cinco escolhidos. Eramos os meninos do coro. Mas o que eu gostava mesmo era de desfilar nas procissões vestido de anjinho azul, castanho, cor de rosa ou branco, de Santa Teresa do Menino Jesus, de S.  José, de S. João Batista e Evangelista, de S. João de Brito, de Santo António, etc, etc, convidado e adornado pela família Crespo que me achavam graça e forneciam essas vestes.  Nunca consegui ser vestido de anjo S. Gabriel, que era uma figura imponente com espada e tudo.
    Enquanto não surgiu o vendaval das dúvidas, das perguntas e das respostas que se resumiam a que quase tudo o inexplicável era um dogma ou uma questão de fé, fui frequentando a igreja  matriz. Lá ao cimo , à direita, apareceu um dia, num altar, um boneco que representava a cabeça de um preto, com uma bonita carapinha e com uma  fenda horizontal à altura do regaço. Era um mealheiro. Quando se colocava uma moeda na fenda, a cabeça do boneco abanava. O preto agradecia.  O dinheiro era para os missionários da África portuguesa. O boneco foi retirado por alguém de bom senso. Ora nessa altura , e por mais alguns anos, viveu em Águeda um cidadão preto com uma carapinha igual à do boneco. Todos o tratavam carinhosamente pelo” Pequenino”. Morava no Ameal. Tinha família e vários filhos. Um deles era o Jorge Preto, célebre vocalista da Orquestra Rua d’Além, de Assequins e do Swing Águeda Jazz. Tinha uma bela voz. Convivi e travei amizade com o Jorge, com as irmãs, com o irmão e também com os netos.
O Pequenino deambulava quase diariamente quando o conheci entre a sua casa no Ameal, a Quinta dos Oliveiras, onde trabalhava, e a Venda Nova, onde frequentava os estabelecimentos do Fausto Vidal (entrevado), a Arminda (Serrana) e a Zinia Morais Mendes. Andava sempre descalço, usava umas calças folhadas, que terminavam um pouco abaixo do joelho, deixando as pernas nuas. Era um homem grande, pacato, respeitador, honesto, trabalhador, que criou e educou uma família respeitada. Era um homem de corpo grande mas, curiosamente, todos o conheciam por O Pequenino.
    Vim a saber muitos anos após a sua morte que se chamava António Santos.
Uma das filhas contou-me que ele fora trazido de Moçambique pelo Senhor Custódio, caçador de feras que tinha uma casa grande, com cabeças de animais embalsamados na rua da Cancela, e que, na alfândega marítima, para facilitar a sua entrada em Portugal metropolitano, o Pequenino fora transportado numa jaula. Fiquei chocado com esta atitude ou expediente, mas não muito admirado.
    Depois O Pequenino cresceu apoiado bondosamente pela Srª Maria do Serrador que morava numa casa ao lado da do Dr. Paulo Sucena, onde esteve instalado o Sindicato dos Metalúrgicos. Ou porque veio muito novo para Portugal, ou porque o seu distintivo sexual era bastante avantajado  ficou, pasme-se , com o nome de O Pequenino
O que é que tem a ver o” Pequenino” com as práticas religiosas, em Águeda?
Ora, naquele tempo, na célebre e tão cantada Semana Santa de Águeda, era montado, no adro da Igreja, pela família Crespo, um palco onde se recordava o julgamento de Cristo e a sua condenação. A maior parte dos assistentes  eram mulheres.
A representação do drama histórico da Paixão era tão real que emocionava vivamente quem assistia. ” O Pequenino” foi assistir à representação e quando chicotearam o personagem que representava Cristo,  O Pequenino e chorou sentidamente. No ano seguinte, O Pequenino, voltou ao Adro, para assistir ao drama, ocupando as filas da frente. Quando reparou que a personagem que estava  a ser chicoteada era a mesma do ano anterior, gritou: “ Cala-te mulher. Choras porquê? Ele já sabia bem para o que vinha”.
O Pequenino não voltou àquela cerimónia, que, pela sua reação ou por falta de artistas, não mais voltou a ser representada