Cristovam Colón: uma biografia altamente polémica
Feb 24,2011 00:00 by BEJA SANTOS

@font-face { font-family: "Arial"; }@font-face { font-family: "Calibri"; }p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal { margin: 0cm 0cm 10pt; line-height: 115%; font-size: 11pt; font-family: "Times New Roman"; }div.Section1 { page: Section1; }Cristóvão Colombo, por definição, é uma das personalidades mais polémicas da historiografia à escala mundial. Entre nós, não há muito tempo, engalfinharam-se várias personalidades por causa do Colombo “português” e da hipótese de ser espião de D. João II. Colombo é tema recorrente, atendendo ao transcendente da viagem de 1492 e às mudanças que imprimiu no desencravamento do globo. Há o Colombo indivíduo e o condutor de um processo colectivo que mudou o conceito de civilização, de transporte e de cultura. Nada mais natural que Colombo suscite estudos, sempre à procura de novos prismas da personalidade e das transformações que imprimiu à vida dos povos.

 “Cristovam Colón, uma biografia crítica”, por Fernando Abecassis (Prefácio, 2010) é, em primeiro lugar, uma obra-prima de comunicação, independentemente do rigor dos dados enunciados no livro, e que são muitos e inquestionavelmente polémicos. Fernando Abecassis não se propõe fazer mais do que uma abordagem sistemática em torno da bibliografia colombina e da considerável bibliografia geral. Provoca espanto como sabe agarrar o leitor, prende-o logo no prefácio: “Este livro não é uma tese sobre Cristovam Colón, é apenas um livro sobre o navegador feito por alguém que é, de há muitos anos, um interessado e um estudioso em assuntos colombinos e que ao longo desses anos foi formando uma ideia e definindo uma personagem… Cristovam Colón não era um homem bom. Era de uma rapacidade doentia e de uma ganância sem limites. Odiava D. João II e os portugueses. Fez tudo para destruir a política marítima de D. João II, inclusivamente querendo fazer vingar a negação do direito de acesso ao oceano Índico, aos navios portugueses”. Aqui se vê como o autor se prepara para desmontar um mito, mas o libelo acusatório vai mais longe: Colón nunca terá submetido a D. João II um projecto de atingir o extremo Oriente navegando para Ocidente. Poderá ter abordado o assunto em Dezembro de 1488 quando visita Lisboa: mas nessa altura os dados já estavam lançados. O projecto de navegar para Ocidente terá sido desenvolvido por ele na Andaluzia, fugido de Portugal, como programa para refazer a sua vida. Demorou quase dois anos para o apresentar na corte; e tão mal apresentado e tão pouco fundamentado que não foi acolhido pelos sábios.

Fernando Abecassis trata com Colón a partir da sua estadia em Portugal e do seu relacionamento com D. João II. “Foi ao serviço de Portugal que ele aqui chegou numa missão de corso. Foi em Portugal que ele aprendeu a navegação astronómica e a navegar no mar Oceano. Foi retomando um velho projecto já abandonado por D. João II que ele resolveu refazer a sua vida em Castela. Foi em Portugal que ele estabeleceu família, foi a Portugal que ele deveu a sua mãe bem como a mãe do seu filho e herdeiro, Diogo. Eram portuguesas as armas que ele usava antes de ser nobilitado pelos Reis Católicos. Usamos sempre a forma Colón porque era assim que Cistovam Colón teria querido que se fizesse, que nunca Colombo”. É preciso ser-se mestre, divulgador exímio, para prender o auditório com um Colombo que a opinião pública conhece como o descobridor do Novo Mundo. Somos logo retidos pela sua identidade que, segundo Fernando Abecassis, era um converso, deverá ter sido educado em sinagoga, bem instruído nas ciências da matemática, da geografia e da cosmografia, pertenceu a uma boa família de judeus sefarditas hispano-portugueses. Não enjeitando a polémica, Abecassis trata o almirante do mar Oceano como um bipolar profundo, de mau carácter, cruel, desonesto e fanfarrão, independentemente de ser um bom marinheiro e esplendido navegador.

 

A estadia de Colombo em Portugal é descrita em páginas admiráveis de simplicidade, o autor superlativa a visão de D. João II, estrategicamente aparelhado para se lançar num empreendimento construído peça por peça para à Índia. D. João II lançou as bases do absolutismo régio liquidando a nobreza contestatária. Dispensado por D. João II, Colombo procura apoios para o projecto de viajar para Ocidente para chegar às Índias. Os Reis Católicos estiveram indisponíveis para o atender até à queda de Granada, a partir dessa data apostaram em chegar à Ásia através do Ocidente. De novo o relato de Fernando Abecassis é bem urdido, ao que parece bem documentado e, a aceitar-se as suas considerações sobre esta viagem, Colombo sabia muito bem que estava a perseguir os itinerários já conhecidos pelos portugueses. Dada a natureza das interpretações díspares de vários autores, a sua afirmação de que Colombo, chegado a Lisboa, terá sido arrogante com o rei, é ponto que no contexto não nos parece ganhar solidez. E assim chegamos ao Tratado de Tordesilhas, em linguagem apaixonada o autor arrasta-nos na conjectura que D. João II já conhecia a região das Antilhas, o seu interesse era afastar Castela da rota das ilhas. E escreve: “D. João II dava as Antilhas a Castela e reservava-se a terra firme, a Sul, aquilo que viria a ser, afinal, o Brasil”. Assinado o Tratado de Tordesilhas, as partes contratantes teria de ir confirmar os territórios a partilhar. De novo somos induzidos de que os descobridores portugueses muito conheciam a oeste, designadamente o cordão insolar que formam as Antilhas. D. Manuel, em 1498, pretendeu esclarecer até onde iam os seus domínios na Costa Brasil, Duarte Pacheco Pereira e Colombo, nesse ano foram encarregados de reconhecer os limites das terras austrais que D. Manuel reclamava como suas.

Temos depois as outras viagens de Colombo, entremeadas de episódios heróicos e fazer-se fé em Fernando Abecassis numa comprovada crueldade e procedimentos a raiar a insanidade mental. Embora rico, Colombo irá cair em desgraça, será destituído de vice-rei, morreu no semiesquecimento: “O último período da vida de Cristovam Colón, desde o regresso da sua infeliz quarta viagem até à sua morte, foi-lhe extremamente penoso, não só pelo seu débil estado de saúde, como ainda pelo desfazer de todos os seus sonhos e o desmoronar de todas as suas ambições”.

Cabe agora aos historiadores apreciar a controvérsia suscitada pelas reflexões de Fernando Abecassis. É impressionante, insiste-se, como o estudo é acessível para além de ser discutível, tudo o que ele encerra. Não se pode deixar de saudar um atrevimento bem construído, magistralmente comunicado. Colombo volta à ribalta em grande perícia, quase com foros de notável romance histórico (que este estudo não é, importa dizer). Este Cristovam Colón ainda vai dar muito que falar. E merece.