Memória: Voluntários de Águeda em defesa da República
Jan 27,2011 00:00 by Deniz Ramos
Extintas as Guardas Municipais leais à monarquia, impunha-se a organização de uma força republicana com a missão de velar em todo o país pela segurança pública, manutenção da ordem e protecção de pessoas e bens, prevenir e reprimir actos ilícitos, coadjuvar as autoridades judiciárias, a par de outras atribuições que viessem a ser-lhe cometidas por lei, regulamentos ou ordens especiais. Essa foi das primeiras preocupações do Governo Provisório. António José de Almeida, ministro do Interior, enquanto não se concluía a estruturação dessa força, dotou Lisboa e Porto de guarnições de segurança pública, organizadas em grande parte com base no pessoal das extintas guardas. A 3 de Maio de 1911 seguir-se-ia o decreto que criou a Guarda Nacional Republicana. Subordinada em tempo de paz ao ministro do Interior, foi constituída por militares organizados em seis batalhões de infantaria e quatro esquadrões de cavalaria, num total de cinco mil homens e setecentos e quarenta cavalos. Em Lisboa ficaram três esquadrões e dois dos batalhões e os restantes foram aquartelados em Évora, Viseu, Porto e Braga. O quarto batalhão de Viseu tinha companhias em Lamego, Castelo Branco, Covilhã, Coimbra, Figueira da Foz, Aveiro e Guarda.

O Batalhão de Águeda de
Voluntários da República em 1910


Reconhecendo quanto a acção popular havia contribuído para o êxito da revolução, António José de Almeida viria a criar também os Batalhões Patrióticos, que seriam formados por voluntários republicanos e destinados especificamente à defesa da República. A 4 de Novembro de 1910 Jornal de Águeda dava conta da intenção do ministro e apoiava a oportunidade da medida: “em poucos anos, poderá transformar o povo português numa nação convenientemente instruída em assuntos militares, tornando-a apta para, de um momento para o outro, se armar em defesa da Pátria em frente de qualquer eventualidade”. A adesão dos republicanos foi imediata e entusiástica até porque já se denunciavam as ameaças da contra--revolução fomentada do exterior e com fortes apoios no país, em especial no centro e no norte. Escrever-se-á em Independência de Águeda a 15 de Fevereiro de 1911: “Lisboa, a orgulhosa capital de tantos feitos heróicos, deu ainda o exemplo de se tornarem eficazes os sacrifícios despendidos para a derrocada do regime, organizando os batalhões de populares que numa tarde recente em marcha triunfal, Avenida em fora, uma vez ainda salientaram a sua lealdade ao governo e aos estrangeiros observadores deram a impressão clara do seu consciente civismo”.
O batalhão patriótico de Águeda seria o primeiro a ser organizado na província. A 10 de Dezembro de 1910, já Independência de Águeda inseria o convite aos correligionários: “A Comissão Municipal Republicana convida os cidadãos republicanos a inscrever-se nas listas dos cidadãos que hão-de formar o batalhão patriótico voluntário do concelho. Podem inscrever-se os cidadãos republicanos de 18 a 45 anos de idade, escolhendo a comissão de entre os inscritos os que definitivamente hão-de constituir o batalhão. As listas para inscrição estão expostas no Centro Republicano e na Mercearia Lisbonense, à praça Conde de Sucena.” Na edição de 17 do mesmo mês, o semanário republicano voltava a incentivar a inscrição no Batalhão Patriótico: “Continua a inscrição aberta para se constituir o batalhão voluntário do concelho de Águeda. Os fins do batalhão são defender a Pátria e a República. Preferem-se os cidadãos que tenham sido militares. A instrução será ministrada por um distinto oficial do 24 que para isso virá a Águeda aos domingos, começando mal esteja organizado. Admitem-se cidadãos de 18 a 45 anos das diferentes freguesias do concelho”.
A organização do batalhão e o treino dos voluntários podem ser acompanhados, semana a semana, em Independência de Águeda. Em 1 de Fevereiro de 1911, quarta-feira, os cidadãos já inscritos são convidados para uma reunião no Centro Republicano no próximo domingo “a fim de ser lido o respectivo regulamento e designado o dia para o primeiro exercício”. A 8, noticiou-se o resultado da reunião: foi discutido e aprovado o regulamento e estabeleceu-se que os treinos teriam lugar aos domingos às duas da tarde, a começar já no dia 12. Acrescentava-se que, “para pertencer ao batalhão é necessário, primeiro que tudo, ser republicano e ser honesto”. Na edição de 11 confirmava-se a realização do exercício no dia 12. A 15 de Fevereiro informava-se que o batalhão se encontrava organizado embora se admitissem mais inscrições: “O nosso amigo, sr. Napoleão Pereira Soares, 2.º sargento de infantaria 5, em Águeda em gozo de licença, prontificou-se a dar as primeiras lições e houve-se com notável mestria. Antes do exercício e separadas em duas escolas os voluntários – os antigos soldados e os actuais recrutas – pronunciou o sr. Napoleão um breve discurso, tendente a demonstrar o fim patriótico dos batalhões populares, e ao mesmo tempo sentia-se orgulhoso por ver a sua terra fornecer tão numeroso contingente a que ele ia ensinar os primeiros passos”. O jornal insistia na assiduidade dos alistados aos treinos que, em breve, contariam “com a teoria do tiro de guerra e com o manejo de armas”. A direcção do Batalhão Patriótico de Voluntários de Águeda estava a cargo de um conselho de três membros, Armando Castela, dr. Fernando Baptista e Álvaro Vidal, perante o qual se deveria fazer os novos alistamentos.
Eugénio Ribeiro, director e proprietário de Independência de Águeda e que foi com Manuel Alegre dos mais activos e insofridos revolucionários, podia rever-se na sua obra pois a organização do batalhão deve-se em grande parte ao seu fervor republicano e às funções de administrador do concelho, representante directo do governo da República. Assim, não surpreende o proselitismo do editorial Voluntários que assinou na edição de 15 de Fevereiro: “Voluntários da República, assim se denominam os cinquenta rapazes do batalhão que há três dias teve em Águeda o primeiro exercício. Um sentimento forte estreita aqueles rapazes, o amor da Pátria, e um decidido propósito os anima, defender a República até à morte. Hoje, Pátria e República, como nunca, são ideias associadas. A República era bem necessária e urgente para que a Pátria portuguesa começasse a ser o que estamos vendo que é: um povo vigoroso que desperta de longos anos de acabrunhadora sujeição. (…) Quatro meses de República deram-nos já, com as reformas que nos põem a par das nações progressivas, alguns milhares de cidadãos soldados, cuja organização em batalhões devemos olhar pelo que ela tem de nobremente patriótico, de modo a encher de orgulho e de fé no futuro quem for verdadeiramente português. O batalhão criado em Águeda inscreve no seu guião de guerra aquele verso do maravilhoso cântico de Alfredo Keil: Pela Pátria lutar! (…) Sim! Lutemos pela Pátria apregoando a paz, e na guerra somente quando no-la queiram enxovalhar os inimigos de fora ou os de dentro, pois “dos portugueses traidores houve algumas vezes”. Em 22 de Fevereiro, depois de mais um exercício na Quinta das Chãs, o dr. Eugénio Ribeiro “em breves, mas eloquentes palavras, frisou quais os deveres e obrigações que tomavam sobre si ao formarem aquele batalhão, o primeiro que existe na província”. Disse ainda “que era necessário que todos se compenetrassem das responsabilidades que ali tomavam, pela sua honra, para a defesa da Pátria, quando ameaçada. O batalhão não se criava para especulosos fins políticos. Não iria com a sua força fazer ameaças ou provocar terrores, como alguém já mal intencionado fez propalar. Não, essas infâmias só merecem o desprezo de todos os republicanos, de todos os homens de bem. O batalhão, depois de instruído, verdadeiramente disciplinado, será em todo o tempo uma garantia para a manutenção da ordem pública e para a defesa da República, que é a defesa da própria Pátria”.
O treino dos voluntários continuou aos domingos sob a orientação de um oficial e esse mesmo instrutor, nos domingos de muita chuva, dava aulas sobre táctica militar no Centro Republicano. Durante todo o mês de Março de 1911 intensificou-se a preparação do batalhão. Os exercícios sucediam-se, desde as marchas ao manejo de armas e ao tiro com carabina em local convenientemente preparado para esse fim. Por essa altura, o capitão Ferreira Viegas assumiu o comando e começaram a ser distribuídos bilhetes de identificação pelos voluntários, sem os quais não poderiam ter acesso à carreira de tiro. Entretanto, a contra-revolução estava em marcha. Apesar da generosidade dos revolucionários após o derrube da monarquia, conspirava-se no estrangeiro e aliciavam-se incautos no interior do país. Todo o editorial de 8 de Março de Independência de Águeda é um alerta para a situação que em breve iria explodir com as insurreições de Paiva Couceiro, mas o republicanismo de Eugénio Ribeiro prometia guerra sem quartel aos conspiradores, aos bandidos: “Qualquer tentativa de arruaça ou de motim será castigado pelo povo republicano sem contemplações. (…) Não quiseram a paz que lhes foi lealmente oferecida, vão ter a guerra sem quartel e Portugal viverá livre e honrado”. Na edição de 18 de Março, em editorial sob a epígrafe Em Armas!, Eugénio Ribeiro volta a acenar com a retaliação firme da parte dos republicanos se os antigos monárquicos, que levaram o país à ruína e nem sequer defenderam o rei e a monarquia, vierem perturbar a República: “A bandeira da Revolução não será maculada por eles enquanto houver em Águeda homens decididos a morrer.

Constituição do Batalhão

Esses homens de Águeda eram os voluntários do batalhão patriótico. Independência de Águeda, nesse mesmo número, forneceu os nomes dos cidadãos inscritos e apurados que formavam o Batalhão de Voluntários da República no concelho de Águeda. Aqui ficam os seus nomes: dr. Eugénio Ribeiro, dr. Fernando Baptista, Álvaro Vidal, Armando Castela, Manuel Luís Mendes da Paz, António Augusto Leite, João Maria dos Santos Galhano, António Marinheiro, Joaquim Ferreira Tavares, João Ribeiro Lopes, Manuel Francisco Grilo, João Rodrigues da Graça, José Ferreira Estima, Alexandre de Oliveira Figueiredo, Joaquim R. da Graça Júnior, Fausto de Pinho Camossa, Francisco de Pinho Camossa, Joaquim Valente de Almeida, Ludgero Tavares Pinheiro, Manuel Gomes Soares, Manuel Ferreira Rés Júnior, João dos Santos Galhano, Mário Guerra, José Maria Mendes de Oliveira, Gonçalo Martins de Castro, Urbano Galhano, Firmino Galhano, Manuel Gaspar A. dos Santos, Silvino Costa, José Alves de Oliveira, Octávio Augusto da Silva, Leonel da Silva Canário, João Gomes Soares, Dimas Chula, Leonel Chula, António Chula, Domingos Augusto da Silva, Salvador Nunes de Figueiredo, António Cristóvão dos Santos, José Ferreira de Almeida, Hugo de Sucena, Agostinho Pereira, Joaquim Ferreira de Oliveira, Gabriel Lopes, Manuel Antunes de Almeida, António Gaspar A. dos Santos, Guilherme Marques, Joaquim Augusto, João Correia da Silva, Albano Liberal, José Alves Freire, Serafim Simões, António Nunes de Figueiredo, José Costa, José Guerra, António Soares, Manuel Grilo, Joaquim Rodrigues de Almeida, Albano Pereira, Joaquim de Matos Costa, Joaquim Maria Canário, José Francisco R. dos Anjos, Leopoldo Breda, João Hermílio F. de Eça e Leyva, João Francisco Dias e António Nunes de Sousa. 1

Civis de Águeda em defesa da
República em 27 de Janeiro de 1919


Os voluntários do batalhão patriótico de Águeda não chegaram a marchar para a fronteira transmontana para se juntar às forças que desbarataram os contra-revolucionários monárquicos de Paiva Couceiro aquando das suas incursões em 5 de Outubro de 1911 e 6 de Julho de 1912. Mas a dedicação dos voluntários de Águeda à República seria posta à prova em outras circunstâncias de não menor melindre. Foram eles, sob as ordens do administrador do concelho, dr. Eugénio Ribeiro, ele também um voluntário do batalhão, que com os seus patrulhamentos pelas ruas da vila dissuadiram veleidades de conspiradores locais, que os houve e alguns até acabaram por ser detidos e entregues à justiça republicana. Foram eles, soldados em armas em defesa da República quando ela esteve em perigo, que contribuíram para a manutenção da ordem e para a segurança da população trabalhadora e ordeira. Em 1919, quando a República esteve, de novo, em perigo, veremos muitos dos antigos voluntários do batalhão patriótico de 1910 na defesa da República, desta vez em campo de batalha e às portas de Águeda, em Alagoa, em apoio aos parcos efectivos republicanos. Aliás, no seu relatório, o tenente-coronel Carlos Luizelo Godinho, comandante das forças republicanas, não deixará de evidenciar esse valioso apoio da população e dos militantes republicanos: “Cumpre-me também fazer notar os magníficos serviços, como agente de informação, prestados pelo capitão médico miliciano dr. António da Costa Ferreira, que foi incansável em obter notícias e guias antes, durante e depois do combate, e que me prestou grandes auxílios e relevantes serviços com o seu corajoso batalhão de voluntários de Oliveira do Bairro e Águeda.”