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Portugal com grades
Sep 24,2010 00:00
by
Luisa-Mello
“Dizem que as mães querem mais, ao filho que mais mal faz Por isso eu te quero tanto E tantas mágoas me dás!…” (letra de fado coimbrão) l Tempo de Verão, tempo de percorrer Portugal fora, vendo-o com os olhos como se de braços de filha se tratasse. A estreitá--lo, a amá-lo, acarinhá-lo como se de pai fora o caso. A ter dó, também, tantas vezes, e nessa altura sou Mãe, se é que me entendem. De um filho que nem sempre anda pelos melhores caminhos. Daí, a história das grades. Todos os pontos cardeais do meu país no-las mostram nas janelas, nas montras, nor portais, nos muros até. Cidades grandes e pequenas, vilas, aldeias das mais desconhecidas. Se a propriedade é um bem legítimo de cada cidadão - e assim deve ser - as grades são um símbolo do medo que o seu proprietário tem de lhe perder o direito, bens móveis como é evidente, que uma nacionalização geral não me parece já ameaçadora, Prec, que felizmente já há muito soltou o suspiro derradeiro…Que, por falar, hoje nem os cemitérios estão a bom recato de segurança! Reverso da medalha e para fazer a vontade aos que estão mortos por contrapôr: e quando havia grades na boca?! Pois. Legitimo também não era mas sempre havia o recurso de ninguém poder cortar-nos a raíz ao pensamento, como glosava canção de intervenção, com toda a lógica. Acresce que a soltura das bocas nem sempre resulta apenas da mais que legítima liberdade de expressão e opinião. O palavrão mais soez e indecente também tem a boca escancarada e não respeita ninguém, nem nenhum lugar. Como dizia o antigo ditado, “mulher honrada não tem ouvidos” e aí temos a solução, sendo que homem educado só tem que enveredar por idêntico caminho… O pior são as crianças que o aprendem com o biberon e os jovens a que ninguém tente fazer reparo sem se livrar de dose reforçada e endereçada… Que me perdoem uma vez mais este atraso geracional, mas tenho saudades das portas nos trincos e de línguas lavadas fora das tascas. l A primeira coisa que enfio na mala quando saio de casa, para ausências mais longas, é um livro. Dois ou três, conforme o tempo de delonga. Tinha intenção de ler Moita Flores com “Mataram o Sidónio!” oferta do meu filho, que me conhece o gosto por coisas históricas, mas considerei que os imprevistos das férias não dariam para a concentração com que gosto de ler obras do género. Decidi-me por dois autores clássicos, um mais moderno e não assim tão clássico, o norte-americano Irving Wallace, e o nosso grande Camilo Castelo Branco. Re-leituras. O primeiro sempre me deu muito deleite com qualquer uma das suas obras. Camilo é um dos meus favoritos de entre os portugueses do século XIX. Em certos livros, um deslumbramento. Cascatas de léxico, de primorosa sintaxe. De sabedoria da História. Do mais apurado sentido de humor mesmo no meio de enredos trágicos que não são poucos… Resolvi reler “A queda de um Anjo”, cuja memória que tinha da primeira leitura, era especialmente, direccionada á política. Infelizmente, a política, em Portugal é uma espécie de “triângulo das Bermudas” sempre a puxar-nos para o fundo… Se não, vejam alguns excertos de Camilo em 1873, sobre os deputados: “Em geral, aquela mocidade esperançosa, eleita por Miranda e outros sertões lusitanos, não sabia topograficamente em que parte moravam os povos seus concumitentes nem entendia que os aborígenes das serranias tivessem mais necessidades que fazerem-se representar, obrigados pelo regimen da Constituição”. (Pelos vistos os lucros mensais não eram lá grande chamariz em tal função, deduzo eu). Ou ainda: “Senhor presidente! que me não queiram persuadir de que estou em casa de orates! Que é isto? Que bailar de ébrios é este em volta de Portugal moribundo? Como podem rir-se os enviados do povo quando um enviado do povo exclama: Não tireis à Nação o que ela não vos pode dar, governos! Não espremais o úbere da vaca faminta, que ordenhareis sangue! Não queiras converter os clamores do povo em cantorias de teatro! “Prova do humor de Camilo, o herói desta novela chama-se Calisto Elói de Silos e Benevides, de Barbuda, da aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda. É este o “Anjo”, do título da obra, uma espécie de D. Quixote em preleja constante pelo purismo da língua portuguesa e pela moral e bons costumes que, em Lisboa, lhe pareciam decadentes senão escandalosos). Daí os risos e as troças com que a maioria dos seus colegas deputados o interrompia constantemente. E, já agora, para remate final: o título “A queda de um Anjo”, termina realmente com um “tombo” de Calisto de Barbuda, às mãos não da política mas, imaginem, do amor que ele assim descrevia: “Duas enfermidade há aí cujos sintomas não descobrem as pessoas inexperientes: uma é o amor a outra é a ténia; (…) é preciso muito acume de vista para descriminá-los: confundem-se com graves achaques desde o hidrotórax até á espinhela caída”. Pela boca morre o peixe! Calisto tinha casado lá na terra com mulher que tinha tanto de feio como de dote e era, ainda por cima sua prima. A clássica fada do lar. Daí porventura, a sua descrição de amor, que neste enlace não fora perdido nem achado… Na “tenebrosa” Lisboa teve a desgraça de apaixonar-se por menina de muito boas famílias - como, aliás, convinha ao morgado Calisto Elói de Silos de Benevides de Barbuda…- não muito abonada de dote a não ser o da beleza e da inteligência. Como se dizia em tempos já para cá de contemporâneos desta história: “Deus nos livre de burra que faz him! e de mulher que sabe latim!” n LUÍSA MELLO - 17-8-2010 |