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Lesam a memória de Águeda e tudo o que tem de bálsamo espiritual
Sep 22,2010 00:00
by
RSP
O executivo do Clube é diligente e activo. Não param as obras, nem param as máquinas, esventram-se ruas e praças, abatem-se árvores, entretêm-se as pessoas curiosas. “Quero mostrar que a inércia não nos vence, que queremos melhorar a vida das pessoas”, proclamou o presidente Gil Pedalais, no varandim da ponte velha, a apontar as máquinas num redopio. “Mas, afinal, porque é que só fazem obras dentro da cidade e esquecem as freguesias?”, perguntou o Zé Oliva, em tom crítico. E especificou: “Deixei em Aguada de Cima tantas obras para acabar, estradas, ruas, fontanários...”. “Ora, a cidade é a sala de visitas”, considerou o Jorge Enfermeiro. E sublinhou: “E até tem mais visibilidade, é a sede”. “Vê-se que a época é de crise de todos os valores”, disse, enlevado, o Brás dos Kiwis - destroem o que é bom e lesam a memória de Águeda e tudo o que tem de balsamo espiritual. É uma tristeza que na febre incontida de fazer, desfazendo, vão arrasar o Cais das Laranjeiras, lugar tão romântico, onde cantei tantos madrigais e compus tantos poemas”. “E na Praça 1º de Maio, ou Praça Vermelha com todo o seu simbolismo, a sua carga”, disse o Balreira da Foice, precisando que “em vez de pintarem uma foice e um martelo, arrancaram as árvores todas...”. “Simbólico – retrucou o Gil Pedalais – é o facto que sublinho. Para atestar a nossa imparcialidade e que governamos sem sectarismos, sem discriminação, vamos deixar a estátua do Conselheiro Albano de Melo, consagrado monárquico, na Praça da República!”. “Mas também está a haver uma revolução inconcebível na utilização dos espaços”, disse, zangado, o Lino Lebre, lembrando que lhe instalaram à frente do estabelecimento uma praça de taxis. “Pelo menos escreveram “taxis” lá no chão! No princípio, ainda pensei que os clientes dos taxis levassem uma ceirita de pregos ou um martelo, mas quando chegam ao taxi já só têm dinheiro para a viagem! E os taxis não querem carregar cimento”, queixou-se o Lino Lebre *** * *** No adro da Igreja de S. Judas conversavam pessoas janotas, em fato domingueiro, em grupo, à espera da saída da procissão. A um canto, junto a uma parede e à sombra, que o sol queimava, alguns homens actualizavam o anedotário nacional, passando pelos discursos dos políticos. A certo momento, o António chegou-se ao ouvido do Paulo e segredou qualquer coisa de inaudível. Ele olhou para o companheiro do lado, percorreu-o com os olhos de cima a baixo e disse-lhe em surdina: “Já viu que tem um sapato de cada nação? E um deles até parece de mulher!” “ Pois é – balbuciou o Zé Manuel – vesti-me à pressa para vir e calcei, por engano, um sapato da minha sogra, mas vou já a casa trocar os sapatos”. Saiu esbaforido e regressou algum tempo depois. O António, sagaz e atento, olhou-lhe para os pés e avisou o Zé Manuel, com os olhos esbugalhados: “Em vez de tirar o sapato de mulher, tirou o de homem e agora traz calçados os dois da sogra?!” Aumentou a perturbação do Zé Manuel que não podia fugir nem esconder os sapatos. Entretanto, a procissão começou a sair da igreja, com as cruzes e pendões e, a certo momento, um dos da irmandade, que ia à frente, denotando que tinha visto a anomalia, avisou o Zé Manuel, apontando-lhe com o dedo e com um aceno de cabeça, para os sapatos. Este mostrou-se impávido e informou: “Estou assim calçado, porque vim cumprir uma promessa!”. |