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Algumas palavras poucas sobre o Leitão Assado
Sep 08,2010 00:00
by
Paulo Sucena (dr.)
O fucinhudo porco e a alentada marrã rosa-pálido formam um casal prodigioso. Em pouco tempo e exigindo muito menos dinheiro e trabalho do que é preciso gastar com uma vaca para comer um bife do lombo de um minguado quarto de quilo, qualquer dos membros do casal nos oferece um leque magnífico de produtos extraídos ou confeccionados a partir do seu corpinho cevado a lavagens, milho e fruta do chão. Que maravilha e diversidade de sabores! Haverá outros animais neste mundo mais generosos para os humanos? Creio que não. E eu bem cedo aprendi isso, com o arroz de matança que o Nai fazia e comia, sentado à mesa, ao meu lado esquerdo, com aquelas mãos enormes, largas como raquetes, que me pareciam invadir o espaço da cabeceira onde eu, deliciado, ingeria rapidamente aquele primeiro pitéu, com pena de não ser capaz de acompanhar o meu pai, sentado na outra cabeceira da mesa. Pois este pesado casal, apesar de ferozmente perseguido pela ciência médica que já mandou baixar o colesterol para um valor inferior a 190 e se vai preparando para nos exigir que o baixemos, quiçá para 100 ou menos, ainda tem a fidalguia de nos ofertar um prodígio maior do que eles, o leitão, que os aguedenses, que o apreciam depois de assado, apelidam de “peixe amarelo” como se quisessem torná-lo inofensivo para a saúde. Não precisei de passar muitas fases da vida para apreciar uns e outros. Amo os pais e os filhos desde a infância. Se guardo na memória o leitão assado pelo Albano Rolha e comido na Festa do Pau, guardo com um maior enlevo a avantajada sandes lentamente consumida pelos meus 8/9 anos na Festa da Giesteira, embriagado ainda, creio que com uma suave tonalidade erótica, pela música das marchas populares de Lisboa cantadas pelos estuantes 20 anos da Maria Rolha, na cabeceira do carro de bois que saíra engalanado da casa do seu pai, o Rolha Velho, na Catraia de Assequins, de onde era essa honestíssima família de trabalhadores sazonais da casa dos meus avós. Não podia adivinhar nessa altura que o leitão entrara na minha vida de uma forma definitiva. Tudo ajudou. O Abel da Benta com a sua “casa de pasto”, na esquina da hoje Rua Celestino Neto com a Av. 25 de Abril, por onde eu passava a caminho da quinta do Pessegueiro e era invadido pelo insinuante cheiro do leitão assado. Assado onde? Para mal dos meus pecados, no forno da Maria da Benta, na Rua de Baixo, a 100 metros da minha casa. Águeda era naquele tempo uma “aldeia” de pessoas amáveis e afáveis e por isso a minha avó mandava comprar ao Abel uma tigela de molho de leitão, apesar de não estar à venda, benevolamente ajustada por 5 tostões, com o qual era adubada uma travessa de arroz que daria para três pessoas e eu devorava com um suculento bife, cortado a preceito pelo sr. Manuel do Talho, pessoa que a minha avó tinha em alta consideração pela sua inexcedível seriedade desde a juventude. E a verdade é que não havia arroz apimentado pelo molho de leitão que me metesse medo e a estratégia culinária revelou-se acertada, porque nadei ao longo dos anos, na época dos campeonatos regionais e nacionais de natação, muitos e muitos quilómetros sem nunca dar sinais, apesar da excessiva magreza, de quaisquer problemas de saúde ou de falta de força física. Com o correr do tempo, o leitão não saiu do meu campo afectivo. Seja o que o meu pai mandou assar ao “Morcego” para o segundo aniversário do primeiro neto, seja o que o meu saudoso amigo Vidal me ofereceu para a festa dos 2 anos do meu neto, seja os que animaram o final dos espectáculos do Orfeão de Águeda, na década de 1980, com o Adriano, o Fausto, o Sérgio Godinho, o Vitorino, o Janita, o Luís Represas, o Gilinho, o Manuel Faria e outros “Trovante”, o Carlos Paredes e o Fernando Alvim, o Barata-Moura, o Lopes Graça e outros, seja os comidos na Festa do “Avante!”, com amigos queridos, alguns já desaparecidos, seja os que mais recentemente tenho partilhado em afectuosos convívios organizados pelo meu amigo Rolim que nasceu com esse raro dom da amizade desinteressada, quer o comido na Festa do Leitão de 2009, com uma equipa de antigos estudantes de Coimbra que constituíram uma mesa que mais parecia um Conselho de Repúblicas de sexagenários. Eu cá me vou mantendo com o colesterol na casa dos 150, mas se o valor desandar para cima tenho que algum dia gritar bem alto: - Sai, ó leitão, da minha vida! Mas fá-lo-ei com alguma nostalgia, com vontade de acrescentar um adjectivo a um verso do grande poeta Gomes Leal: Bela! dizia eu, fria como o luar. Sobre o dorso luzente e excepcional de um peixe amarelo. n PAULO SUCENA |