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Os portugueses não sabem perder nem ganhar
Jul 22,2010 00:00
by
Afonso de Mello
A história de Águeda conta-se depressa: com uma lista interminável de candidatos a entrevistas, houve que puxar pelos pergaminhos dessa Águeda que um dia «foi o Mundo». E o bom amigo José Hélio Sucena, hoje director da Fundação José Saramago, lá tratou de acertar a conversa, numa manhã de sol, no Hotel Altis.Com José Saramago houve, portanto, a entrevista, inevitável e incontornável, mas houve, sobretudo, em redor dela, uma conversa muito mais bonita porque existem ainda em Portugal pessoas que vale a pena ouvir falar, escutando-lhes atentamente a sabedoria que foram retirando do movimento rotativo da vida. E foi ele que foi levando as respostas por onde quis, com as perguntas a perderem, mais cedo ou mais tarde, o significado na sua peugada. De tal forma que dava vontade de dizer como o padre Manuel Velho, na citação que abre o Memorial do Convento: «yo no voy, este me lleba». E então, olhem, ficou desta forma: - Ser Prémio Nobel é mais ou menos como ser Campeão do Mundo da Literatura? - Não acho que seja. Os campeões do Mundo correm, ou jogam, ou lutam uns contra os outros. Nos Prémios Nobel, sejam eles da literatura ou lá do que forem, não existe contacto físico nem exibição de dotes atléticos. - Mas há competição... Ele nega de pronto, como se a sugestão lhe causasse desagrado: - Não, não há competição! Cada um está a fazer o seu trabalho. E ao fazê-lo não está em competição com A ou B e muito menos com todos. É o resultado desse trabalho que é objecto da atenção de uma instituição, no caso a Academia Sueca, e portanto não se pode falar em... campeonato. Além disso também não está provado que nestas coisas de Nobel ganhe o melhor. - Como no desporto, aliás. Mas este ano não podemos dizer que não foi o melhor que ganhou... Ri-se e interrompe: - Isso não é a mim que cabe julgar. - Se fizesse parte de um júri encarregado de galardoar o Prémio Nobel do Desporto, em quem votaria? Transparecem-lhe as dúvidas. Rapidamente desfeitas: - Não conheço bem o desporto mundial, nem sequer o nosso, mas vamos colocar-nos no pequeno mundo português: tal como estão as coisas agora, eu dava o prémio à Manuela Machado. - Por que é que o desporto, em geral, e o futebol em particular têm sido incompatíveis com a literatura? Quer dizer, o desporto não é propriamente um tema literário, pois não? - Aqui entre nós não é. Mas na América Latina é, e muito. Tem-se escrito, e muitíssimo bem, sobre o mundo do futebol. - Mas qual é o porquê desse fenómeno ser tão localizado? - Não sei como responder-lhe a essa pergunta. No caso da América Latina, poderíamos atribuir isso à terrível paixão com que o jogo é vivido por lá. Aparentemente, por aqui também há paixão... E conclui, após uma pausa ligeira: - ... mas talvez não haja. - Se calhar há apenas facciosismos... - Olhe, se calhar é isso mesmo. - Que me lembre, dos noventa e quatro Prémios Nobel da Literatura que o precederam, apenas um, Camilo José Cela, escreveu assumidamente em redor do desporto no seu Onze Contos de Futebol. Alguma vez lhe passaria pela cabeça escrever contos sobre futebol? - Não..., não. E a razão é simples: trata-se de um mundo que não conheço. Em princípio, quem escreve deve ter muito cuidado e não se meter por assuntos que não domina. Da mesma maneira que não seria capaz de escrever um romance ou um conto em que o personagem principal fosse um presidente do conselho de administração de uma empresa multinacional, também não seria capaz de meter-me na pele de um dirigente de um clube de futebol ou de um jogador de futebol. - Mas há outros casos. Gente que não escreve sobre desporto mas que, ao longo dos seus livros, passa por lá. O Hugo Claus, por exemplo, como bom belga, não dispensa umas descrições sobre os sprints entre Vervaecke e Bartali; o próprio Vergílio Ferreira tem aquela história do ponta-esquerda a quem amputam a perna e, na cama do hospital, continua a sonhar com o momento de marcar o penalty... Em Saramago nem isso acontece. - Até agora nunca me aconteceu... - O distanciamento entre si e o desporto é assim tão grande? - Bom, eu joguei ténis durante muitos anos, vivia na Parede e tinha acesso fácil aos courts. Nado, como qualquer pessoa nada, pratiquei um desporto menos do que amadorístico, as mudanças da minha vida afastaram-me da prática desportiva. Mas distanciamento não posso dizer que haja. Sou dos que assistem aos espectáculos confortavelmente sentado frente à televisão. Gosto de ver umas modalidades bem menos do que outras. O salto em comprimento, por exemplo, aborrece-me porque é excessivamente repetitivo. Mas aprecio as corridas. As corridas que não são de longa distância, por que essas são excessivamente tácticas, deixando a resolução para as últimas voltas, dando vontade de perguntar para que é que se correram todas as voltas anteriores. O futebol tem o velho problema: ou é bem ou mal jogado. - Tal como os livros. Ou são bem ou mal escritos. - E, da mesma maneira que um livro mal escrito se torna entediante, também me sucede estar a ver um jogo de futebol e deixá-lo a meio. Além disso, o futebol de hoje tem uma coisa que eu não suporto, que é o jogo violento. Não o jogo violento no sentido... razoável. Não é preciso embrulhar os jogadores em algodão-em-rama. Mas existe uma violência assente na crueldade que eu não aceito. Que me desgosta. - Em Portugal, um mau jogador de futebol, para não dizer um péssimo jogador de futebol, pode ganhar a vida decentemente a fazer o que gosta, um bom escritor arrisca-se a morrer de fome se o tentar. Isso desgosta-o? A resposta é imediata: - É evidentemente uma coisa que me desgosta muito. Como me desgosta outra situação que vem nessa linha: um escritor ganha um prémio - não precisa de ser um Nobel, bastam dois ou três mil contos - e é infalível que lhe saia ao caminho um jornalista a perguntar o que é que ele vai fazer ao dinheiro. Pergunta que nunca colocam a um jogador de futebol que ganha, numa temporada, quatro, cinco, seis vezes mais do que um escritor ganha durante a vida. Eu estava em Frankfurt, dei uma entrevista a uma cadeia de televisão, já não sei qual, e lá veio a pergunta: «e agora o que é que vai fazer a esse dinheiro?». Claro que eu podia ter respondido: «e o que é que o senhor tem que ver com isso?» Mas não, limitei-me a dizer-lhe: «você já perguntou isso alguma vez ao Ronaldo, ao Bebeto ou ao João Pinto?». - O Ronaldo, se calhar, não sabe mesmo o que fazer ao dinheiro. - Lá saberá. E muito naturalmente compra coisas que eu nunca compraria. - AFONSO DE MELLO (continua na próxima edição Jornal em papel) |