A propósito do PEC
Apr 07,2010 00:00 by Carlos Abrantes (Dr.)
Descansem os leitores que não vou fazer apreciações técnicas ou políticas ao PEC. Essas ficam para os comentadores encartados, ou para os profissionais da política. Limitar-me-ei encarar Portugal como uma família.
Uma família tradicional, à antiga, com diferentes gerações a conviver no mesmo espaço. Um espaço onde ainda paira a memória de antepassados ilustres e empreendedores, donos de fartas terras e larga criadagem. Onde houve riqueza e opulência, ouro e pedras preciosas.
Onde houve tudo isso, mas já não há! Porque os terrenos que outrora eram férteis definharam, por falta de adubação e cuidado. Porque as mulas de trabalho foram substituídas por cavalos de dressage e os tractores substituídos por Ferraris.
Porque os tanques de rega foram substituídos por piscinas e as hortas por campos de ténis. Porque se transformou o celeiro em pavilhão de caça e as instalações que outrora alojavam o pessoal foram aperaltadas para receber visitantes ilustres.
Porque o feitor foi substituído por um personal trainer. E porque não se procuraram fontes alternativas de rendimento. Em suma, porque o ócio substituiu o trabalho.
Apesar disso, aquela família insiste em continuar a viver de acordo com os padrões do tempo da abastança.
Resultado: endivida-se.
Pede empréstimos para pagar o que consome. E volta a pedir novos empréstimos para pagar os empréstimos anteriores e respectivos juros. E assim sucessivamente, até um dia – o dia em que os credores cortam o crédito.
Aqui chegados, o que fazer?
Reduzir o consumo? Adequar a despesa ao rendimento? Não, isso nunca! Isso seria perder estatuto e alguém com tanto pergaminho, com tanta história familiar, não pode perder estatuto.
Mas não está tudo perdido. Ainda resta algum ouro, muitas acções de empresas monopolistas e um vasto património imobiliário, bens herdados dos ilustres antepassados.
Pois que se vendam! Nem que seja ao desbarato. Nem que seja aos falsos amigos que sempre surgem nestas ocasiões.
E se, mesmo assim, o resultado da venda de património não for suficiente para por as contas em dia?
Que se reduza a despesa.
 Mas há que ser muito selectivo, não se pode cortar a eito.
Há que traçar um plano, um plano de estabilidade. Um plano que, não mexendo no bem-estar da família, permita algumas poupanças.
Corta-se na mesada dos filhos? Nem pensar!
Suspende-se a construção da casa de férias? Que ideia tola!
Reduzem-se as idas ao ginásio, ao cabeleireiro, ao golfe e ao teatro? Claro que não!
Então, corta-se aonde?
Corta-se onde não dói, corta-se nos salários da criadagem. E se tal não for suficiente, corta-se também nas despesas com os mais velhos da família. Afinal , são improdutivos, estão a ficar taralhocos e dão uma despesa enorme.
Eu sei que Portugal não pode ser comparado a uma família. Também sei que os problemas do País e os problemas das famílias são diferentes. Sei ainda que ambos são de difícil solução. Mas também tenho a certeza que é mais fácil resolver os problemas do País do que os problemas das famílias. Porque o Estado pode lançar impostos e as famílias não!
n  Carlos-a-abrantes@clix.pt