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Pintaram aquelas faixas no sítio onde estacionávamos os automóveis
Mar 24,2010 00:00
by
RSP
Na Rua de Cima e na Júlio Portela, peonizadas, apareceram, coladas no pavimento, pequenas chapas redondas, com uma bicicleta gravada. As pessoas passam e interrogam-se sobre o seu significado. «Isto, para pista de ciclismo, não pode ser...», dizia o Joaquim da Trigal, a esfregar uma dessas placas com a biqueira da sapatilha branca, com riscas verdes. «A rua é estreita, cheia de laranjeiras e obstáculos, para isso não dá». «É um sinal misterioso de alguma corrente esotérica, com algum fim insondável!», disse com um sorriso irónico a drª. Luisinha do Mel, sentada na esplanada. «O que me parece - comentou o Deniz de Bouquets - dado o símbolo das placas, por terem sido colocadas no centro histórico e porque Águeda era a terra da indústria das bicicletas e de outros veículos de duas rodas, este gesto é uma homenagem aos industriais e ao inventor da roda». E iniciou um longo discurso sobre a roda e sobre a invenção da roda, que levou à roda livre, à roda pedaleira, à roda dentada, à roda da sorte e andou por esse assunto à roda, passando pelo neolítico, paleolítico, transportes públicos de trogloditas, idade do ferro e do bronze até pôr os circunstantes quase a dormir. O Raúl do Apito que estava a tomar um panaché, interrompeu e esclareceu: «Essas placas foram compradas para os funcionários do Clube participarem em jogos tradicionais da malha ou do chinquilho. Como nunca foram usadas, aproveitaram-nas para decoração das ruas. Mas não deram para a rua toda, só chegaram à porta do Rinodente...». «Não é nada disso, vocês andam desatentos - disse, com veemência, o Gil Pedalais - tudo o que vocês dizem, não cabe na cabeça de ninguém! O que se vê aí nas placas é uma bicicleta porque isso indica uma pista de ciclismo! Se repararem, foi pintada uma faixa vermelha em muitas ruas da cidade, para incentivar o uso da bicicleta...». «E eu a pensar que eram os preparativos para os festejos da vitória do Benfica», comentou o Jorginho Gosta. «Ou para a vinda do Papa...». «Seja para o que for - disse com indignação, o Ramadas Enfermeiro, que estava no ajuntamento - pintaram aquelas faixas no sítio onde estacionávamos os automóveis. É um desaforo que nenhum comerciante ou morador daquela zona suporta. Só se quiserem que vamos todos para lá de bicicleta!». «Tem razão», comentou em voz alta o Egberto das Canas, acabado de chegar do Brasil, bronzeado, de bermudas, camisa de ramagem, chinelos de dedão e panamá com uma peninha na cabeça. E acrescentou: «Se se lembram de pintar faixas vermelhas em todas as ruas, não há onde estacionar!». Entretanto, chegaram o João Piedoso, o Jorge Enfermeiro e a Excelsa da Corga, com galochas, fatos de oleado e luvas de trabalho, cada um com um grande saco de lixo às costas. Sentaram-se pesadamente na esplanada e disseram para os que lá estavam: «Se em vez de estarem para aí a conversar fizessem como nós e viessem ajudar a limpar Portugal, é que faziam bem!». «Limpar as mentes, também é limpar - disse o Gil Pedalais - eu estou aqui a explicar o significado dos nossos actos, estava tudo baralhado com as chapas aí do chão». *** * *** O Silva Frango vinha a descer apressadamente a escada da sede da Associação dos Naturais dos do Lado de Cá do Rio, a sacudir os ombros e a falar sozinho, quando foi interpelado pelo Fernando Balantaines: «O que é que se passa, parece que vai incomodado!?». «E tenho razão para isso. Foi convocada uma assembleia-geral, houve propostas e eu não concordei com a convocatória, vim-me embora e deixei-os lá...», respondeu. «Mas quem é que fez a convocatória?». «Fui eu, mas não concordo! O que eu pretendia era mais alguma coisa do que eles queriam. Como a assembleia é soberana... vim-me embora e eles que resolvam sem presidente...». |