Temporais interiores e exteriores...
Mar 18,2010 00:00 by LuĂ­sa Melo
Que ventania vai lá fora! Mete medo. Segue-se pelos ecrãs televisivos a destruição que as águas, desencadearam em grande parte da nossa “pérola do Atlântico”. Coração pequenino de susto e de pena. Coração ao alto, com a união no esforço e na vontade dos nossos compatriotas madeirenses. A força de um povo que se não deixa vergar nem pelas terríveis surpresas de uma Natureza que cada vez mais se impõe às nossas auto-suficientes seguranças de homens detentores da Civilização e da Ciência. Nada anda mais à vontade de Deus do que o tempo, diziam os nosso avós, menos providos da segurança que nos dão as técnicas actuais. Ou então, “amanhã”, se não chover, fará sol se Deus quiser…” Era no tempo em que cada um sabia de si e Deus sabia de todos. A aldeia global que é actualmente o nosso mundo deixa-nos mais acompanhados no bom e no mau. Aparecem notícias e imagens de um sismo de magnitude 8,8 no Chile. Há dois dias um de 6,9 no Japão. Em escala minuscula, tenho todas as portas e janelas da minha casa calafetadas e, mesmo assim, sinto o vento rugir e as persianas abanarem. Penso naqueles cujas habitações lhes não dão o conforto e segurança que ainda assim vou sentindo. Pobres dos pobres!
VULNERABILIDADES: Não sou daqueles que atribuem à predação do Homem todas as catástrofes naturais. Há em alguma, porventura, responsabilidade humana por certas barbaridades cometidas contra a Natureza. Agora de, por causa delas, o céu nos vir a caír em cima da cabeça, como temia o gaulês Obelix, não me parece possível. Basta pensar que há milhões de anos, ainda o Homem não era Homem, nem predador, nem poluidor, nem irresponsável, desapareceram da superfície da terra milhares de dinossauros, de mamutes, de outras espécies de animais. Podemos conjecturar o quê?!… A terra deve ter sido literalmente atacada por tempestades tão medonhas que, assim de uma assentada, varreram da sua face espécies animais e vegetais inteiras. De qualquer modo, estaremos sempre à mercê do tempo. O que, a pensar bem, nos retira a empáfia da auto-confiança e nos remete para vulnerabilidades que, se calhar, só passam ao nosso consciente perante as destruições naturais que a todo o momento nos podem alcançar. Que sábado!
LOBO ANTUNES: E por ser sábado: o António Sala, grande comunicador e grande entrevistador da Rádio Renascença - o meu posto de sempre - costuma, de há anos para cá, fazer neste dia, a meio da manhã, entrevistas às mais diversas e interessantes personalidades do nosso país. Poucas devo ter perdido, e contra a minha vontade, durante todo este tempo. Hoje seria a última, visto que sai do seu trabalho precisamente no fim de Fevereiro. A derradeira entrevista calhou a Lobo Antunes. Chave de ouro! Ando sempre com papeis, blocos, livrinhos de apontamentos comigo. Tenho-os na sala, no quarto, à mão, na cozinha até. Algo que me bata forte no ouvido, na leitura, nos olhos, aponto… Tenho envelopes “grávidos” de recortes! Em dia como este, cheio de imagens devastadores, nalguns casos, é verdade, suavizadas pela resposta com que a união de esforços e vontades parecem querer enfrentar  descalabros, o escritor levou-me compulsivamente a registar estes apontamentos: "quando as pessoas que amamos se transformam em retratos, a dor é sem consolo", "as minhas veias têm mais mortos que sangue"; "já não posso fazer planos para trinta anos”; "é maravilhoso estar vivo porque a cada passo nos surpreendemos: convém manter certa virgindade do olhar"…
E mais este, que achei magnífico: "Sempre me senti bem em meios mais humildes. Têm outra alma: as pessoas são mais genuínas, possam embora ser menos cultas. Cultura não é forçosamente erudição… Fazer bolos de bacalhau pode ser erudição!". Tomei boa nota, sobretudo porque me identifiquei. Como o autor, já percorri mais de metade da minha vida…
ESTADO LAICO: não posso estar mais de acordo! Igual respeito por todas as crenças e não crenças: não posso estar mais de acordo, repito! Discordo, sim, das provocações, sobretudo quando são públicas e escusadas. Na Madeira, uma Senhora da Conceição restou intacta na derrocada de uma capela. O locutor de serviço "daquela" estação telivisiva sempre se referiu à Senhora como a "santa", com certo ar displicente. Até aqui, nem sequer choca. Pior foi quando o mesmo, referindo-se à imagem da Senhora de Fátima (as senhoras são só uma, a mãe de Cristo…) que tinha chegado ao Funchal poucos dias antes daquele fim do mundo e com a qual se promoveu uma procissão de funchalenses, pior foi, ia dizendo, o "discurso" do jornalista entrevistando uma senhora cuja fé de certo lhe dava consolo. "Não acha coincidência a vinda da Santa e esta catástrofe?!" Ó santo!…