O que o Clube tem feito é construir castelos no ar…
Feb 17,2010 00:00 by RSP
Lindo o desfile carnavalesco das crianças das escolas do concelho, alacres e felizes, com trajes policromáticos, rostos pintados, carros alegóricos, tambores, o som reconfortante do riso dos passeantes.
A essas escolas foi sugerido,  ou imposto, pelo Clube da Venda Nova o tema  “Castelos no Ar”, o que obrigou os responsáveis a pensar nas vestimentas e gestos que se adequassem. O corso saiu da alta da cidade e desceu até ao Largo do Mercado. Nos passeios, acotovelaram-se milhares de pessoas.
““Castelos no Ar” assenta como uma luva no Clube”, comentou o Zé do Candeeiro, encostado à ombreira da porta da loja: “Na verdade, o que o Clube tem feito é construir castelos no ar...”.
“Antes no ar do que na areia, porque sempre poupam a areia”, disse o Estimado dos Papéis, acrescentando que “só espero que a anunciada auto-estrada e a via rápida para Aveiro não sejam castelos no chão!”.
“Mas vocês têm sorte, porque o cortejo passa-vos aqui à porta, quem tem razão de queixa somos nós, os da Rua de Cima”, disse, indignada, a Manuela dos Cacos. E mais: “Já não deixam passar nem estacionar automóveis e os que passam a pé têm que ter cautela para não embater nas laranjeiras... e agora, por influência perniciosa da organizador do corso, a Janiffer Lopes, até o cortejo de carnaval nos tiraram da rua...”.
“E sofremos as cheias da água e as secas das vendas, porque não há movimento – acrescentou, lamuriento, o Melro da Diamante – este mês só consegui vender dois brincos de filigrana e uma pulseira de fantasia e passei a vida a consertar relógios velhos que os novos ninguém os compra...
“E agora, para cúmulo, até o cortejo de Carnaval nos tiraram da rua e desviaram-no para a rua do Lino Lebre...”, clamou, nervoso, o Egberto das Canas, no meio da multidão, acrescentando:   “Fui queixar-me à Associação dos Secos e Molhados e sabem o que me respondeu despudoradamente o Natas da Sapataria, que também é da Rua de Cima e devia zelar pelos nossos interesses? Que se acedesse à minha queixa, vinham-se queixar os das outras ruas...”.
“Pois é, nem calculam o prejuízo que  tive com o desvio do cortejo”, disse o Paulo Rinodente. “Eu, a contar com o desfile, mandei vir uma carrada de máscaras, narizes postiços, bigodes, línguas de sogra, serpentinas, bichas de rabiar, peidos engarrafados...”.
“Eu – atalhou a Manuela dos Cacos – encomendei uma partida de porcelana de Limoges, cristais da Boémia, uma carrada de bengalas encasteladas em prata, porque atrás das crianças vêm os pais...”.
“E eu  que enchi a montra com perucas, postiços e apliques, implantes capilares, madeixas de várias cores”,  disse, desanimado, o Acácio Queirós do Vale, frisandi que  “vai ficar  tudo para aí...”.
“A Céu Rinodente veio à porta da livraria, olhou por baixo dos óculos e disse em tom sarcástico: “Tenham calma, guardem essas coisas e para o próximo ano já sabemos o que havemos de fazer: pomos um porco a assar aqui na rua e vocês vão ver como eles passam com o cortejo por aqui!”.
O Brás dos Kiwis, nostálgico dos bons tempos passados na sua loja da Rua de Cima, dedicou este poema ao Caranaval:
Há no corso, alegria
Mas chora a Rua de Cima
Que não se anima
Com toda esta folia.
O Melro da Diamante
Tem cheia a estante
Durante a semana inteira
Só vendeu uma pulseira.
E resmunga o Egberto:
Assim nem vale a pena
Manter o comércio aberto.
O Acácio Queirós do Vale