Como foi possivel?
Dec 10,2009 00:00 by MJHMello
Transcrevo a seguir uma parte do posfácio com que se encerra o livro recentemente publicado pelo autor destas linhas.
 Estávamos em 1960. Creio ser-me lícito afirmar que acertei em cheio nos pro-gnósticos que então tive ocasião de fazer e interrogar-me agora: “Como foi possível que alguém tão inexperiente como eu tivesse «visto» o que um homem com a inteligência, a perspicácia, a ponderação e os conhecimentos do então Presidente do Conselho se revelou incapaz de prever?
Só encontro duas respostas alternativas possíveis:
- Ou o dr. Salazar, a partir sobretudo da perda de Goa, tinha deixado de estar, precocemente, na plena posse das suas excepcionais qualidades intelectuais e anímicas que conduziram magistralmente a política externa portuguesa no decurso do conflito mundial, conseguindo manter o país fora da refrega numa «neutralidade colaborante» que poucos deixaram de reconhecer, agradecer e aplaudir;
- Ou então optou por jogar Portugal na “roleta da sorte” (as mais das vezes adversa a quem joga) preferindo continuar no poder e desistir de regressar a Santa Comba Dão de motu próprio, apesar de não poder ter a menor dúvida sobre a tempestade que se acumulava no horizonte e as trágicas consequências dela resultantes.
Seguindo o método e o raciocínio do Professor Paulo Otero, no seu livro “Os Últimos Meses de Salazar”, teremos de reconhecer a enorme dificuldade, para não escrever impossibilidade, de chegarmos a uma conclusão definitiva. Só Salazar poderia estar em condições de esclarecer o que terá sucedido e mesmo assim, se a resposta acaso fosse a diminuição da sua capacidade intelectual jamais seria objecto de confissão, quer por ser minimizante ou humilhante, quer por ser irreconhecível pelo próprio.
Segundo Paulo Otero, este não será o grande enigma que Salazar nos deixou (para este autor, o grande enigma é saber se Salazar alguma vez chegou a ter consciência de ter sido substituído, ainda em vida, por Marcello Caetano, o que é interessante, embora  me pareça relativamente secundário face a apurar se errou conscientemente ou se errou no intuito de se manter no poder até ao limite do seu ciclo vital. Será aceitável aceitar-se (repetição voluntária) que o então  Presidente do Conselho não tenha sido capaz de prever e de reconhecer como inevitável e incontornável o que parecia (e era!) uma evidência a todas as luzes?! Será  aceitável  aceitar-se (repetição outra vez propositada)  semelhante ponto de vista?
Não me parece. Daí que não devesse modificar, sequer alterar no essencial, o que então escrevi. O que me permite concluir - pese embora a eventual petulância - que afinal não fui eu que procurei o curso da História mas a História é que veio ao encontro do meu. A irreprimível vocação para a independência dos territórios por nós descobertos, povoados (escassamente) e alguns razoavelmente desenvolvidos, manifestou-se muito antes da febre colonialista que viria a apossar-se do Estado Novo três séculos mais tarde, para depois aderir ao integracionismo que viria a ser oficialmente adoptado pelo regime através do célebre grito lançado pelo presidente Carmona ao chegar a Lourenço Marques, hoje Maputo: AQUI É PORTUGAL! E sê-lo-ia, se dependesse apenas da vontade de alguns.
Na verdade, andámos em sentido contrário ao da História: colonialistas quando não o deveríamos ser; imperialistas quando o colonialismo se finava rápida e irremediavelmente. Não se trata de uma simples teimosia ou casmurrice. A verdade é que continuo a pensar que o nosso caminho não deveria ser o da continuidade da colonização mas liderar precisamente o contrário, ou seja, proporcionar e até incentivar a descolonização. Se já em 1500 fôramos capazes de dar novos mundos ao Mundo, no século XX bem poderíamos e deveríamos ter seguido idêntico caminho, procurando forjar novos «brasis». Pois não é verdade que o sucesso de qualquer política se mede pelos resultados alcançados? n MJHM  
Director honorário SP
(Continua)