Clube da Venda Nova: Se quiserem dinheiro, vão ter com o pai do José las!
May 27,2009 00:00 by RSP
O Recreativo está em convulsão, até parece em agonia. Desceu de divisão, tem dívidas vultuosas. Foi convocada a assembleia, que reuniu. Os sócios discutiram em tumulto. As contas, apesar de complexas, couberam numa folha de papel A4. O Eleutério Costa Nova, presidente, estremeceu no meio de enorme alarido e de vozes ameaçadoras. O David Assucena até fracturou o escafóide da mão direita com a violência de um murro na mesa.
Num momento de maior acalmia o presidente clamou: «Temos que arranjar corpos sociais para o Recreativo. Estão aqui mais de cem pessoas, têm que aparecer voluntários, nem que seja à força».
«Eu fico», gritou o José Ias, da fila da frente. «E tenho aqui uma lista elaborada, disposta a tirar o clube da situação em que se encontra e a pagar as dívidas, nem que tenha que ir cantar as janeiras na Páscoa. Queremos ir para a primeira divisão...».
«Pois vais, vais - resmungou o Egberto das Canas. Para a primeira distrital!».
Foi lido o elenco dos candidatos, entre os quais se mantinham os actuais presidentes da direcção e da assembleia e ouviu-se uma voz do fundo da sala: «O meu nome está aí, mas eu nem quero nem posso ser eleito, porque nem sequer sou sócio!».
Gerou-se grande confusão, fez-se a votação por braço no ar e nem se sabe se a contagem foi bem feita e se alguns não estariam com os dois braços levantados. No meio da agitação ruidosa e com impropérios pelo meio dirigidos ao José Ias e ao Presidente Costa Nova, este saiu de rompante da sala e disse: «Não volto cá mais, arranjem outro presidente e se quiserem dinheiro vão ter com o pai do José Ias».

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Lindos que estavam o Joaquim da Trigal e o sócio Henrique Cido à porta da loja. Em pé, em pose, com um meio chapéu de cozinheiro na cabeça e um grande avental branco de alças largas que lhe chegava aos pés, empertigado e teso, o Henrique Cido estava tão empinado que parecia ter uma almofada debaixo do avental.
Nas mesas juntas na esplanada, dispostas em quadrado, sentaram-se provadores, gourmets e críticos gastronómicos.
«Estamos aqui para apresentar uma iguaria inédita, criação nossa, com registo de patente – disse o Joaquim da Trigal, com ar doutoral – é a bola de leitão. Fizemos uma parceria com o assador e temos o patrocínio generoso da Confraria das Almas».
«Esta bola é deliciosa, como terão oportunidade de ver», confirmou o Dr. Joaquim Almada da Confraria, mandando avançar um dos tabuleiros. «Vai ser lançada e comercializada na próxima festa do leitão. Isto nada tem a ver com o gelado que há dois anos para aí deram...».
Começaram a comer e o Luís Bastinhos, a mastigar um naco, deu a seguinte opinião: «Isto realmente é bom, mas tem muito molho e pouco leitão...».
«Mas na festa, com a saída que vai ter, ninguém repara», disse o Dr. Joaquim de Almada, pousando o queixo na mão. «Vamos supor que o assador não consegue dar vazão e acaba o leitão. Se a massa estiver lêveda e tiver que ir para o forno, a gente unta com molho...».
«Para dar mais autenticidade, vamos construir um forno na feira para a bola estar sempre a sair quentinha», disse o Joaquim da Trigal.
O Zé do Candeeiro, um dos convivas, enquanto mastigava um pedaço de bola, disse, gaguejante e com vivacidade: «Isto está mesmo bom, pôxa! Agora eu também gostava muito de entrar nesta parceria. Podia fornecer o vinho, um branco de casta isabelinho, misturado com  cabernet e rabo-de-ovelha, suavizado com uma pequena porção de água de botaréu!».
«Bem - disse o Luis Bastinhos, levantando-se - ou eu muito me engano ou vocês,  com essa parceria,  vão causar uma quebra enorme nas vendas dos outros restaurantes!».