Quando o (mau) exemplo vem de cima
Apr 22,2009 00:00 by MJHMello
Bem prega frei Tomás. Ouve o que diz não faças o que faz.
Pouca gente haverá que não conheça o provérbio. E raros serão aqueles que - por isso mesmo - o não seguem à risca. De uma maneira geral, dá-se como adquirido que a fraternidade, a solidariedade, a gratidão e o carácter constituem o “núcleo duro” das virtudes humanas. Mas, infelizmente, são cada vez em menor número aqueles que as possuem, embora quase todos finjam aplicá-las, segui-las e respeitá-las. E se tivermos atenção ao que vai por esse mundo fora, não nos será difícil concluir que, quanto mais importantes e preponderantes forem as tarefas que a cada qual estejam confiadas, mais afastados se encontram do caminho que lhes cumpria seguir.
O exemplo deveria vir de cima, mas é precisamente o contrário que as mais das vezes se verifica. Quanto mais alto é o pedestal, menos exemplares são as actuações. Ser-se protagonista, é uma responsabilidade mas deveria ser, antes de tudo, um exemplo. O ditado acima recordado nasceu da desconformidade entre o que se apregoa e os actos que se praticam e não deveriam ser praticados. Ouvir o que S. Tomás nos diz, ou tem para nos dizer, até pode ser simpático; mas fazer o que ele aconselha é que talvez já não possa ser tão agradável.   
O exemplo mais corriqueiro - e talvez por isso mesmo o mais conhecido - é-nos dado pelos párocos católicos, sujeitos ao voto de castidade e à regra do celibato, que proclamavam (e creio que muitos ainda proclamam) com veemência e bom som, do alto dos púlpitos, a devida abstinência sexual e matrimonial para, depois, chegados ao aconchego nocturno, murmurarem aos ouvidos das “governantas” os lascivos gemidos próprios da luxúria humana, refreada desde que Adão e Eva não resistiram a entregar-se mutuamente, cometendo o “pecado original”.
Foi assim que me veio ao pensamento a recordação do comportamento de quantos, colocados em funções da mais alta responsabilidade, se prestam a actuar como quaisquer “zés ninguéns”, haja em vista o que recentemente ocorreu no tristíssimo e recente episódio protagonizado por distintos magistrados do Ministério Público, a propósito do não menos triste caso Freeport, queixando-se, uns, de estarem a ser vítimas de pressões políticas, enquanto outros as negam frontalmente.
Chamados a capítulo pelo meritíssimo Procurador Geral, no intuito de se apurar quem falara verdade ou quem mentira, tornou-se impossível chegar a uma conclusão. O que evidenciou que pelo menos um dos ilustres magistrados deu o “exemplo” de ter faltado à verdade. Quando tal acontece a este nível do funcionalismo público, que se poderá esperar daqueles que se situam nos degraus mais modestos da pirâmide estatal?!
Miserando país e miseranda justiça. Serão os povos que merecem o que por aí vai ou  será o que para aí está que merece o país que temos?
n MJHM
Director Honorário SP