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Breve reflexão em torno de "Sete Partidas"
Jan 28,2009 00:00
by
Paulo Sucena (dr)
Na obra poética de Manuel Alegre é possível definir um poderoso veio temático, explicitado em inúmeros poemas onde a língua literária do poeta se afirma com uma singularidade inimitável. Lembro, entre outros livros, Praça da Canção, O Canto e as Armas, Doze Naus e Sete Partidas, obras em que Manuel Alegre nos oferece um tenso, intenso, reflectido canto da História de Portugal, dos seus “ciclo[s] de sombra ciclo[s] de luz” (Atlântico), dos seus mitos, olhados do direito e do avesso, do seu povo e de algumas figuras como é o caso do Infante D. Pedro que se recorta, em Sete Partidas, como um complexo sujeito do enunciado a quem o sujeito da enunciação, o poeta, se irmana tal como já acontecera em Atlântico.Podemos, portanto, dizer que uma assinalável parte da poesia de Manuel Alegre nasceu sobre o pano de fundo da história dos “filhos de Viriato” (Praça da Canção), repensada e cantada nos seus contextos temporais mas poeticamente transposta para o tempo em que os poemas foram escritos, neles se inserindo não só o cunho político-social mas, também, a marca pessoal do pensamento de Manuel Alegre. Deste modo, ele se apresenta como um aedo na praça da canção, incrustando na melodia do passado os acordes do futuro, num canto onde perpassam laivos de utopia e de um subtil movimento dialéctico, amiúde modelados por um espírito místico e revolucionário. Estamos perante uma poesia que de algum modo sempre sustenta uma teoria da esperança. O livro que hoje nos ocupa, Sete Partidas, tem como referências o infante D. Pedro, filho de D. João I, e o seu sobrinho e genro, o rei Afonso V, e a luta em que se envolveram e que teve um trágico desenlace junto da ribeira de Alfarrobeira, com a morte do infante das sete partidas e de seu amigo Álvaro Vaz de Almada. É esta uma circunstância histórica que não poderia deixar de impressionar fortemente o poeta Manuel Alegre que sempre condenou os mesquinhos, os ambiciosos, os traiçoeiros, os maledicentes, os órfãos de princípios éticos e morais e constatou que foram homens dessa estirpe que conspiraram contra uma figura de grande cultura, com uma invejável maturidade política que lhe permitiu conceber estratégias com vista a uma complexa e difícil harmonia de opostos (para usar palavras do velho Heraclito). Proveniente da figura do infante D. Pedro, um profundo sentido de universalidade percorre o poema, consubstanciado na necessidade de uma intensa e aberta relação intersubjectiva entre os diferentes sujeitos, sejam do sul ou do norte, do nascente ou do poente, bem como entre o “espírito” dos lugares. As nações só podem crescer pela interacção de pessoas e povos. A plenitude humana só pode provir da harmonia resultante do livre “comércio” de culturas. É isso que evidenciam a vida e o pensamento de D. Pedro, a quem o rei Afonso V ofereceu a morte, a prisão perpétua ou o desterro. Perante essa iniquidade, o poeta de Sete Partidas confessa: Então eu sei que, no mais fundo de mim, Por entre pedras provocações insultos Enquanto D. Pedro avança Eles atacam às 20 em ponto na TV E o poema escreve-se no dia adverso como Um sol inverso. O leitor pode observar então como as tonalidades da amargura ressumam deste livro, não só porque o sonho de D. Pedro se desfez mas também porque este vasto mundo global é dominado pelo pensamento único em todos os telejornais. Quer dizer que, para o poeta, o Tratado de Lisboa não foi o motor de uma Europa em movimento ascensional, mas o suporte de um mundo sequestrado pelos senhores do dinheiro, onde apenas estremecem os mercados, esses novos deuses criados pelo capitalismo neoliberal, tão só orientados pelos ventos do lucro. Mas então o poeta diz-nos: O poema escreve-se no dia adverso como um sol inverso. Mais uma vez Manuel Alegre nos acende uma luz de esperança. É que um dia pode acontecer que uma réstia de sol nasça do chão de Lisboa e se erga contra um céu há tempo demais cinzento. Não poderíamos, a terminar, deixar de sublinhar, no último livro de Manuel Alegre, a ideia de nostalgia do que poderia ter sido e não foi, passe o saibo linguístico a Manuel Bandeira. Em Sete Partidas, o poeta revela-nos, com a subtileza habitual, que o segredo da vida é a feitura do momento único, inimitável, desvelando o novo do velho e projectando-o nessa “coisa de arte” chamada poema, que os grandes poetas, como Manuel Alegre, buscam infatigavelmente na ânsia avassaladora da perfeição. Uma visitação à figura do infante D. Pedro, uma reflexão sobre o passado e o presente de Portugal, realizadas pela admirável língua literária de Manuel Alegre, são o grande momento deste livro, o nada deste poema. Mas é esse quase nada, esse se, esse mas que Manuel Alegre, num trabalho de demiurgo, rouba aos deuses e escreve no chão espesso da terra como quem semeia um sol transformador da vida que faz dele um dos grandes poetas da literatura portuguesa. - PAULO SUCENA |